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Por que ricos perdem dinheiro na poupança?

Por Fernando Torres – 22/10/2013 às 00h00

Aqueles que acreditam, ou melhor, tem fé, na racionalidade do investidor poderiam tentar explicar aos incrédulos porque – faça chuva ou faça sol – a caderneta de poupança continua a receber novos depósitos no Brasil.

Esse é um dos fenômenos mais intrigantes do comportamento do brasileiro no mercado financeiro recentemente. A última vez que a poupança acumulou resgates líquidos em um período de 12 meses foi em setembro de 2006. 

Embora haja sensibilidade à variação da Selic, de lá para cá as captações em períodos anuais variaram de pisos próximos a R$ 14 bilhões para o pico, alcançado de outubro de 2012 a setembro de 2013, com entrada de R$ 65,5 bilhões.

É claro que a poupança tem inúmeros atrativos. É um instrumento popular, simples, está ligado diretamente à conta corrente (às vezes mesmo sem ter sido uma escolha do correntista), sem taxa de administração, tem rentabilidade conhecida, liquidez imediata e não possui Imposto de Renda. Enfim, é uma opção mais do que conveniente.

Essas razões, contudo, parecem explicar apenas os depósitos de baixo valor na caderneta, seja de pessoas com poucos recursos, ou mesmo de investidores abastados que querem ter alguma reserva emergencial disponível, mas rendendo alguma coisa.

O que é difícil de entender é por que, de junho de 2006 a dezembro de 2012, o número de cadernetas com saldo acima de R$ 30 mil cresceu de 1 milhão para 3,5 milhões.

Essas poupanças mais recheadas representam 4% do total em termos de quantidade, mas tinham R$ 306 bilhões em aplicações em dezembro do ano passado, o que equivalia a 62% do volume de recursos aplicados na modalidade.

O saldo médio aplicado nesse subgrupo de contas era de R$ 86 mil no fim de 2012, o que sugere que os recursos não são apenas emergenciais.

E é aí que entra a questão sobre a racionalidade.

Investidores que possuem essa quantia reservada, em tese, têm acesso a aplicações mais rentáveis do que a poupança e com custos de transação ou taxas de administração palatáveis.

Considerando que ao menos metade dos recursos aplicados não precisaria ficar na poupança, foi feita uma simulação para se ter ideia de quanto esses milhões de brasileiros perderam – ou deixaram de ganhar -, pela conveniência de deixar o dinheiro na poupança.

O cálculo tem como referência um custo de 0,5% ao ano, Imposto de Renda de 22,5% (para aplicações de curto prazo) e uma aplicação conservadora atrelada ao CDI. Entre 2006 e 2012, a perda soma R$ 3,7 bilhões. Já se o dinheiro ficasse mais tempo aplicado, e o IR caísse para 15%, a cifra salta para R$ 8,2 bilhões.

Se os poupadores perderam, na outra ponta ganharam os bancos e os tomadores de crédito subsidiado repassado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação (SFH).

Como se imagina que esses indivíduos não estavam pensando em fazer caridade ao deixar o dinheiro na poupança, há sinais de que a lógica e a razão não são suficientes para desvendar o mistério do crescimento da caderneta.

E a resposta provavelmente está ligada a questões psicológicas que determinam o comportamento humano, que são cada vez mais estudadas no campo das finanças.

No mundo acadêmico e fora dele, muito se discute sobre as reações racionais ou não dos investidores, com defensores vorazes dos dois lados.

Mas será mesmo que existe essa dicotomia? Talvez haja uma mistura, com pessoas e outros agentes sendo racionais em alguns momentos, mas não em outros. Em certos aspectos da vida, mas não em todos.

Olhe a sua volta e verá que alguém que lida muito bem com dinheiro pode ter um comportamento bastante irracional na hora de cuidar da saúde, por exemplo.

Quem fica indignado quando vê pessoas perdendo dinheiro à toa por decisões pouco pensadas na área financeira devia se perguntar se mantém a racionalidade na hora de comer, de fazer exercícios, de evitar o estresse, de não fumar etc.

O ponto comum nesses casos é que todos sabem o que devem fazer. Mas nem sempre a racionalidade prevalece.

Por isso, inúmeras pessoas acabam recorrendo a especialistas e a subterfúgios – médicos, nutricionistas, psicólogos, personal trainers, spas, academias etc – para que eles os ajudem a fazer algo que sabem que é o certo, mas são incapazes de fazer sozinhos.

Voltando para o lado financeiro, parece ser cada vez mais necessário não se restringir aos argumentos puramente racionais para tentar convencer as pessoas a lidar melhor com o dinheiro.

Se o indivíduo consegue pagar parcelas de um crediário, mas não poupar de maneira voluntária, pode valer a pena criar uma estratégia de aplicação automática em contas separadas para “enganar” o cérebro a respeito da disponibilidade do dinheiro. Quem faz dieta conhece bem esse tipo de técnica.

Caso poupar não seja o problema – como parece ser o caso dos detentores das cadernetas com saldo médio acima de R$ 80 mil -, mas sim o desconhecimento e a insegurança para ir além da poupança, talvez seja o caso de procurar orientação de profissionais capacitados e referenciados, como se faz numa consulta médica.

O importante é que o assessor esteja alinhado ao investidor, e não contra ele, como muitas vezes ocorre com vendedores de produtos financeiros.

Fernando Torres é repórter de S.A. e escreve mensalmente.

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