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Os sete pecados na gestão de recursos

08/07/2013 às 18h17 2 | Postado por: André Rocha

 
Ações, Estratégia de investimento

Quais seriam as principais falhas praticadas pelos administradores de recursos em seus processos de investimento?

Ao procurarmos o significado de “perene” no Google nos deparamos com “o que se conserva durante muito tempo; duradouro”. O sonho de qualquer analista é escrever algo que permaneça válido por longo tempo. Logo, perene. Contudo, não é uma tarefa fácil. A maior parte das corretoras tem preferido o antônimo: “transitório, provisório” — relatórios com abordagem no curto prazo, cujos maiores exemplos são aqueles voltados para a análise do resultado trimestral. Nem mesmo o preço-alvo das ações, teoricamente menos volátil por representar seu valor intrínseco, passa incólume, variando conforme a conjuntura.

James Montier parece ter conseguido escrever algo atemporal. Dia desses um amigo me enviou o relatório “Seven Signs of Fund Management — A behavioural critique”, da corretora Dresdner Kleinwort Wasserstein (DrKW), título que inspirou o nome deste artigo. O relatório foi publicado no já distante 18 de novembro de 2005, antes da crise do subprime, portanto.

Os sete pecados elencados são os seguintes:

1) Estimativas — projetar os resultados das companhias ou das variáveis macroeconômicas é tarefa complexa. O grau de acerto é baixo. Então por que as projeções continuam sendo usadas e são peça chave da decisão de investimneto? Porque o consenso de mercado cria a ilusão de um “porto seguro” em um mundo incerto. Por isso, o investidor não deve se basear exclusivamente no preço-alvo ou na estimativa futura do lucro. Vejo o método do fluxo de caixa descontado, a métrica mais usada pela análise fundamentalista, mais como uma ferramenta para entender a dinâmica da companhia do que para fornecer o valor final e definitivo da empresa e de sua ação. Serve, por exemplo, para observar como se comportam os resultados da companhia quando alteramos algumas variáveis como o preço de um insumo ou o câmbio.

2) A ilusão do conhecimento — se o mercado é eficiente, o único meio de obter retorno superior é obter mais informação e conhecimento sobre o futuro. Parece intuitivo. Mas o cérebro humano possui limitada capacidade para lidar com muitas informações. Além disso, o excesso de conhecimento gera outro problema: aumenta a confiança sem que gere melhora do resultado final.

3) Reunião com companhias — esse ponto talvez seja o mais controverso, pois diversas gestoras de recursos incluem a reunião com a administração como peça-chave no processo de investimento. Montier tenta desqualificar esta estratégia. Primeiro, mais informação não significa melhor informação. Segundo, os executivos das empresas sofrem de ilusão cognitiva. Segundo a pesquisa Duke Survey of CFO, os executivos são mais otimistas com as estimativas para suas próprias empresas do que com aquelas relacionadas à economia. Além disso, geralmente acreditam que os papéis de suas empresas estão subavaliados. No quarto trimestre de 1998, pouco antes da bolha da internet, 90% dos diretores financeiros das empresas de tecnologia acreditavam que suas ações estavam negociando abaixo do valor justo. Difícil não traçar um paralelo entre estes dados e a visão dos executivos da OGX alguns anos atrás sobre os resultados futuros da companhia. Por fim, há uma tendência para procurarmos informações que confirmem nossos pensamentos e as gestoras geralmente fazem visitas às companhias nas quais estão mais inclinadas a investir. Nesse contexto, será que elas são realmente isentas para uma correta avaliação?

4) A crença de que somos mais espertos do que a média — levante a mão quem se considera pior do que a média?

5) Horizonte de curto prazo e excesso de giro — embora a maioria das gestoras defina-se como investidor fundamentalista de longo prazo, a realidade não é essa. Segundo Montier, o período médio de manutenção das ações na New York Exchange é de 11 meses. Difícil acreditar que este comportamento seja baseado no valor intrínseco ou em fluxo de caixa descontado.

6) Crença em tudo o que se lê — em geral, investidores são fisgados por histórias atraentes. Quantos não investiram nas “dotcom” no fim da década de 90 na crença de que a internet mudaria radicalmente o ambiente dos negócios? Outra ideia com forte apelo é o investimento em mercados emergentes devido ao maior crescimento de suas economias. O autor mostra estudo da DrKW com base no índice MSCI que prova o contrário. Mercados acionários de países com menor expectativa de crescimento têm apresentado retorno superior ao dos países emergentes. A evolução recente da economia brasileira e do Ibovespa comparada à do PIB americano e do índice S&P 500 parecem corroborar o estudo. Cuidado com as teses de investimento charmosas!

7) Decisões baseadas em consenso – a crença geral é a de que as decisões feitas em grupo são melhores do que as feitas individualmente, pois permitem a troca de ideias e compensam os vieses individuais. Contudo, estudos mostram que essa prática reduz o debate, pois se evitam ideias polêmicas. Membros do grupo buscam o reconhecimento de seus pares e, logo, tendem a defender apenas os conceitos bem aceitos pelo grupo.

O investidor leitor (como eu) pode não concordar com todos estes pecados, mas não custa nada tê-los em mente.

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