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Auditores cobram mais dos clientes no pós-Lava-Jato

Por: Nelson Niero, Fernando Torres e Paula Selmi – Valor – 08/11/2016.

A maior crise política das últimas décadas, que atingiu em cheio a credibilidade de grandes empresas brasileiras, deu um impulso nos ganhos das firmas de auditoria que avalizam a compatibilidade dos balanços financeiros com as normas contábeis.

A maior percepção de risco depois de escândalos de corrupção envolvendo empreiteiras e a Petrobras, a maior empresa do país, resultou no aumento dos honorários recebidos pelas auditorias.

O desafio agora é fazer com que os novos patamares sobrevivam ao acirramento da concorrência no rodízio obrigatório de clientes, que tem uma grande rodada começando (ver mais em ).

Levantamento feito pelo Valor com 628 empresas – a base disponível na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), regulador do mercado de capitais – mostra que os honorários cobrados pelas auditorias em 2015 somaram R$ 699 milhões, 16% a mais que os R$ 601 milhões do ano anterior, quando veio a público a Operação Lava-Jato da Polícia Federal.

No topo da lista de aumentos e de valor absoluto de honorários aparecem a Petrobras e outras empresas envolvidas direta ou indiretamente nos escândalos.

As revelações de desvios de dinheiro em empresas com ações negociadas em bolsa reacenderam as críticas à atuação dos auditores, que são citados em processos abertos por investidores no Brasil e nos Estados Unidos, onde algumas dessas companhias têm papéis negociados.

Diante do cenário de risco maior, os auditores reforçaram suas equipes, aumentaram as horas de trabalho e, lógico, cobraram de seus clientes. Ao mesmo tempo, preparam seus advogados para enfrentar a fúria dos investidores que perderam dinheiro com a queda das ações.

Não por acaso, a maior evolução de honorários foi da Petrobras. Pega no olho do furacão, a PwC recusou-se a assinar o parecer sobre o balanço antes de ter mais informações sobre a extensão do esquema de corrupção na empresa. A queda de braço levou meses e culminou com a queda da cúpula da estatal.

Quando foi renovar o contrato, a PwC pediu quase 200% de aumento, o que levou o honorário da estatal para o topo da lista pela primeira vez desde que são divulgados esses dados – ficou à frente dos bancos privados Itaú e Bradesco, cujos honorários mudaram relativamente pouco. A estatal pagou R$ 67 milhões à PwC em 2015 (incluindo outros serviços), depois de ter desembolsado R$ 23 milhões em 2014.

O fator de risco também pesou no quarto da lista, o BTG Pactual, que pagou 70% a mais pela auditoria da Ernst & Young por ter o nome do seu principal sócio e então presidente, André Esteves, envolvido na operação da PF. O cheque foi de R$ 26,7 milhões em 2015.

Embora as auditorias não façam diretamente a investigação das fraudes dos clientes, elas precisam conduzir um trabalho paralelo – chamado de “shadow investigation” -, para poder opinar sobre o que foi apurado. “Isso obviamente se reflete em aumento de honorário, seja porque são mais horas trabalhadas, seja porque envolve pessoal mais sênior”, diz Rogério Andrade, sócio da KPMG. “Não significa, no entanto, que não exista negociação sobre preço.”

Cliente da KPMG, a Eletrobras teve que desembolsar quase o dobro para ter suas demonstrações financeiras auditadas. A estatal, que também é investigada, atrasou a entrega dos seus balanços no mercado americano, a ponto de quase ser excluída da Bolsa de Nova York. O documento de 2014 só foi entregue à Securities and Exchange Commission (SEC) em outubro, com um ano e meio de atraso, o que regularizou sua situação.

No centro do escândalo, Petrobras teve que pagar 200% mais para que suas contas fossem auditadas pela PwC

O estudo mostra que as quatro grandes auditorias – PwC, Deloitte, EY e KPMG – assinam 66% dos balanços das companhias abertas brasileiras (96% dos ativos). A concentração, no entanto, é muito maior no aspecto financeiro. Juntas, as quatro ficaram com 96% dos honorários pagos em 2015, mesmo índice visto em 2014.

A PwC obteve a maior parcela do bolo, de 31%, sustentada por Petrobras, Itaú e Gerdau, principalmente. Os três clientes respondem por mais de 64% do total faturado pela firma com empresas abertas. O nível de concentração de receita entre os três maiores clientes de capital aberto também é grande, mas menor, para EY (40%), KPMG (37%) e Deloitte (22%).

Apesar da visibilidade que proporciona, a auditoria das empresas abertas é uma pequena parte, de cerca de 12%, em média, do faturamento total dessas firmas, que também avaliam balanços de empresas de capital fechado e prestam para ambas consultorias diversas – de onde vem a maior parte de seu faturamento.

De maneira geral, o serviço de auditoria responde por 40% das receitas das Big Four no mundo, ante uma fatia de 50% há dez anos, enquanto as consultorias de diversos tipos – estratégica, assessoria em transações, implantação de sistemas etc. – ficam com pouco mais de 35%. A área tributária responde por pouco menos de 25%.

Os honorários pagos pela auditoria de balanços das companhias abertas, no entanto, são o único dado disponível, já que as empresas registradas na CVM são obrigadas a publicá-lo todo ano.

Já as auditorias divulgam apenas o seu faturamento anual, e por critérios e prazos que nem sempre são coincidentes, o que dificulta a comparação. No ano fiscal de 2015, último dado disponível, as quatro grandes do setor tiveram receita somada de R$ 4,98 bilhões no Brasil.

O aumento dos honorários foi um reflexo da crise, diz Henrique Luz, sócio da PwC. Para ele, os ganhos dificilmente atravessarão ilesos a disputa do rodízio.

Andrade, da KPMG, também acredita que, passado esse efeito dos casos de investigação, os dados dos próximos anos apontem a remuneração dos auditores crescendo até mesmo abaixo da inflação.

Esse cenário, segundo Cláudio Camargo, sócio-líder da EY para a área de auditoria, coloca as empresas em uma nova encruzilhada: como diminuir os custos de seus serviços para corresponder à nova realidade econômica das empresas e ao mesmo tempo aprimorar a qualidade do trabalhos para lidar com o novo cenário de risco? Segundo ele, entre as opções estão o uso de tecnologia e a adoção de novas metodologias.

Vagner Alves, sócio-líder da área de auditoria da Deloitte, lembra que a preocupação com qualidade também vem do regulador e diz que uma saída é fazer um trabalho com foco em risco, o que significa priorizar transações e saldos contábeis que possam resultar erros materiais nos balanços.

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